o motivo




Hoje foi a minha primeira visita do ano, acompanhada de mais 3 palhaços. A minha última visita aconteceu no dia 21 de novembro (devido a problemas pessoais eu não pude fazê-la em dezembro), o que significa que desde que comecei a trabalhar no Hospital ainda não havia entrado lá sem bater ponto e de nariz vermelho.

Esta primeira visita foi interessante porque pouca gente me reconheceu. E a primeira pessoa pareceu surpresa - talvez até assustada - e me perguntou o porque de eu participar "disso". "É muito bonito, mas deve ser muito sofrido. Não entendo o motivo de você procurar o sofrimento".

Eu poderia dar várias respostas, mas na hora só sorri. Agora, longe da euforia do momento, penso nos motivos que me levaram a querer ser uma Palhaça de Hospital. Faço parte deste grupo há mais de 2 anos e sinto que talvez os motivos disso sejam totalmente egoístas: antes me faltava algo.

Sempre procurei me encontrar em alguma filosofia de vida, em alguma religião, ter fé, crer em algo. Mas minhas conversas com Ele só aconteciam à noite, quando colocava a cabeça no travesseiro. Eu queria desenvolver mais a minha espiritualidade, mas não acertava o templo. "Ele está em todo lugar", dizem. E eu creio. Mas como humana e errada que sou, sentia que faltava algo. Uma conexão maior, talvez.

Quando soube da existência deste grupo e da possibilidade de me tornar membro, fui por ser algo novo. Queria experimentar. Além disso, queria poder fazer algo de útil para os outros, fazer o bem. Não sabia que ia encontrar a peça que eu sentia tanta falta.

Em minha primeira visita encontrei um garotinho com vários problemas. Além de ter tido um problema cerebral, que limitava os movimentos e desenvolvimento, ele estava com pneumonia e respirava por aparelhos. Porém, quando me viu, esforçou-se para virar em minha direção. Os olhinhos brilharam. Eu fiquei assustada e tive medo de fazer alguma coisa errada: era a hora do "vamos ver". Comecei a fazer a única coisa que me veio à cabeça: bolinhas de sabão. E acertei. O garotinho sorria, tentava se mover - e movia. Pedia mais. Arrepiei e senti a conexão. Naquele momento eu percebi que poderia me sentir mais completa de uma forma que eu nunca imaginei antes: sendo uma palhaça.

Nem sempre eu consigo arrancar um sorriso: às vezes a dor é maior. Nem sempre as bolinhas de sabão dão certo: às vezes elas estouram, às vezes ouço um choro. Mas a conexão não se perde. Quando estou com meu nariz me sinto mais humana. Ao mesmo tempo, mais perto de algo próximo do divino.

Mas eu acho que explicar tudo isso no momento em que o meu colega perguntou os meus motivos não viria ao caso. Até porque ele não entenderia que sou palhaça por ser egoísta. É por isso que preferi sorrir. E assim vai ser sempre, até eu encontrar uma resposta melhor do que "é bom fazer o bem".

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