a vida no hospital




Eu trabalho a menos de um mês no mesmo hospital onde comecei a fazer minhas tímidas visitas, em 2007. E confesso que nas primeiras semanas foi quase impossível me segurar cada vez que eu entrava por aquela porta: sem minha máscara de borracha ou minhas bolinhas de sabão, só posso olhar para as pessoas e ser simpática com um bom dia ou boa tarde. Nada de cantar, arreganhar um sorriso ou sentar do lado como velha conhecida. Isso ficou restrito aos dias de visita, claro, mas durante a semana é a publicitária que está lá.

Logo na primeira semana, tive um treinamento sobre o funcionamento do hospital e durante uma das palestras ouvi uma frase que mexeu comigo. Ela foi dita a uma das novas enfermeiras da UTI Neo, mas foi como uma luva para mim - não a publicitária, a palhaça. "Temos que ir embora do hospital e deixar as criancinhas aqui, por mais difícil que seja." E eu fiquei me perguntando se faço isso. Não faço. Para falar a verdade, tenho uma creche inteira correndo no meu terreiro. É complicado. Mas algumas histórias eu carrego comigo... e é difícil me desprender. Sei que isso não é bom, mas ainda não aprendi a não me envolver em alguns casos. Acho que é normal. E sei que preciso dar um jeito de tornar tudo isso mais leve: assim, apesar de ainda carregar algumas criancinhas, talvez não seja mais tão pesado.

O trabalho no hospital é maravilhoso, e poder conhecer um pouco mais do seu dia-a-dia, além do meu jaleco enfeitado, é uma experiência incrível. Mas confesso que nessas primeiras semanas de trabalho muitas vezes eu saio do hospital, mas ele não sai de mim.

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na hora do milagre



Sabe aquela coisa da hora certa no lugar certo? Então... No último sábado (21) senti na pele como é.

A visita foi em um hospital que eu não conhecia, numa cidade vizinha. O lugar estava vazio e haviam pouquíssimos pacientes. Apesar do ambiente, parecia ser um dia comum, sem muitas surpresas. Mas eu estava errada... e que bom que foi assim! Na companhia de três palhacinhas, ouvi de uma senhora que aquela era com certeza a hora da alegria. E não é que era?

Ao entrar na maternidade, encontramos uma senhora - sorriso aflito, mãos trêmulas mas nenhum vestígio de tristeza no olhar. Ela estava à espera do Gabriel, seu sobrinho. "Mas eu ainda não o conheço, porque ele está para chegar." Foram só essas palavrinhas saírem da boca da senhora, que ouvimos um pequeno gritinho. Era o Gabriel querendo se avisar.

Sei que o que fiz depois disso é errado. Mas quando a gente tem um cúmplice, o erro parece menor. E, se serve de desculpa, a emoção não me deixou pensar. Nas pontinhas dos meus sapatos vermelhos, fui, em palhaça companhia, até o quarto onde o bebê mostrava os seus dotes de Tim Maia.

Presenciar um milagre é algo inesquecível. E na hora em que olhei aquela mulher deitada e os médicos do outro lado manuseando por detrás de uma "tenda" a vida recém-chegada, senti um arrepio. A nova mãezinha não percebeu a nossa presença, o pequeno Gabriel preenchia todo o espaço. Mas um dos médicos veio nos dar as boas vindas, sorridente, orgulhoso: trabalho feito.

Depois disso foram só sorrisos, e eu não tenho dúvidas de que a hora da alegria foi a hora do milagre. Estávamos sintonizadas com a criação e não sei se conseguiremos alguma outra vez ser tão pontuais com o acaso.

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dois meninos na faixa dos 10




Primeiro post. Deveria ser mais alegre, afinal, hoje minhas visitas foram mais tranquilas. Poucas crianças e as que estavam lá brincaram e pareceram se divertir - o que fizemos deu certo, e confesso que é muito frustrante quando não dá. Mas duas histórias me marcaram muito. Uma delas já faz parte de mim há alguns meses e a outra quebrou hoje um grande tabu. Elas são a cara de uma realidade infeliz em que muitos vivem. E apesar de ser "palhaça", tem horas em que eu preciso (e muito!) falar sério. Nessas horas eu tiro o nariz, pego minha xícara de café e deixo o coração tomar conta. Então... "senta que lá vem a história".


Menino 1

Vinda do sertão nordestino há 18 anos, dona Maria do Socorro pede ajuda até no nome - talvez seus pais tenham pressentido que passaria por poucas e boas. Dez dias antes de seu único filho se internar por uma doença desconhecida, perdeu a mãe. Mãe sozinha que é, usa como muleta um olhar triste e um quase sorriso apagado, tímido, humilde. Seu filho se internou em julho deste ano, e desde então, dona Maria do Socorro anda pelo hospital. "Ele vai ficar bem, não vai, menina? Deus tem que me ajudar." Foi o que ela falou pra mim quando nos encontramos pela primeira vez na salinha de espera da UTI. Seu menino, de 11 anos, havia entrado para a cirurgia. Hoje, depois de muitos encontros, foi a primeira vez em que falei da pessoa por trás da máscara - muito pouco, mas o suficiente pra dona Maria do Socorro falar dela também. Seu filho, apesar de ter várias escoriações por todo o corpo e ainda não se apoiar em pé, estava mais animado e interessadíssimo no seu celular novo. A sua doença continua desconhecida. O garoto quer passar uma música para o meu celular via Bluetooth. E eu não consigo entender como é que uma solitária mãe que nasceu, cresceu e envelheceu no sertão do nordeste, além de viver de forma tão sofrida, não tem o direito nem mesmo de saber o que é que faz tanto mal ao seu filho. Dona Maria continua pedindo socorro.


Menino 2

Os olhos brilham e ele sorri como quem quer sair correndo por aí para brincar. Ele tem 11 anos, olhar esperto e sorriso sincero. Um mini-game do lado. Mas apesar do sorriso, não vai realizar a vontade de correr por aí: levou um tiro. Tem uma costura que vai do umbigo até o meio do peito. Está em uma cadeira de rodas e não vai voltar a andar, mas ainda não sabe. Enquanto isso, sua mãe ajeita a almofada da sua cadeira e ele se envolve com um funk que sai do celular. Aliás, ele sabe cantar a música toda, sem errar uma palavra só. Sua realidade é marcada pela violência. Traficante e homicida, sua fama nas ruas é de cruel. Mas naquela cadeira de rodas, o que vi foi uma criança soltando gargalhadas e me pedindo um adesivo para enfeitar o mini-game. A comunidade está um pouco mais aliviada. É mais fácil confiar na falsa segurança de um destino trágico a dar assistência às crianças que vivem na marginalidade.

Tenho que confessar que antes de saber que o garoto estava internado, eu já conhecia a sua fama e muitas vezes tive receio. Mas a verdade é que é muito triste ver uma infância corrompida, e mais triste ainda quando se sabe que se existissem mais projetos voltados para crianças como ele, essa história poderia ser diferente, assim como muitas outras. Um projeto social não muda o mundo e nem tem o poder de colocar ponto final na criminalidade (
até porque o buraco é bem mais embaixo e a história é muito mais complicada), mas acredito que uma oportunidade pode mudar a vida de muita gente.

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