quando a mágica é real




A cada vez que vou ao hospital, aprendo uma coisa nova, vivencio uma experiência marcante. Na visita do último sábado (04/12/10) as doutoras Pitica Mix e Ciba Lena tiveram um contato diferente com um dos pacientes. O garotinho tinha medo de palhaços, por isso, não deixou que entrássemos no quarto. Mas ao mesmo tempo ele estava curioso para saber o que era aquela confusão toda que as duas aprontavam fora do quarto e com os olhinhos pedia que a gente não fosse embora. Como o cliente tem sempre razão, o paciente também deve ter e por isso a gente ficou. Do lado de fora do quarto, atrás da janela de vidro.

Brincamos de esconde-esconde, disputamos lugar para ver quem aparecia mais, fizemos malabares com lenços e, por fim, bolinhas de sabão. E o garotinho sempre rindo MUITO. A mãe pedia que ele deixasse os palhaços entrarem, mas ele sempre negava. E continuava rindo. E a gente respeitava, claro! Acontece que, de repente, uma bolinha de sabão arteira se transformou em bolinha mágica e... puff! Quando estourou, virou um carrinho. Carrinho que fez o garotinho ir à loucura. Mas que nem assim nos deu passe de entrada no quarto. O carrinho foi colocado na porta e na mesma hora agarrado pela criança. As Doutoras-Palhaças se despediram e saíram felizes: não havia decepção por não terem entrado no quarto. Na verdade, a alegria tinha sido maior ainda. As gargalhadas permitiram que a mágica fosse real e a alegria tomou conta daquele corredor.

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reencontro no hospital

Imagem: banco de imagens


Da última vez em que escrevi aqui até hoje, várias visitas aconteceram. E várias emoções foram vividas por mim e meus colegas. Como hoje.

Como seguimos um cronograma, fazemos em média uma ou duas visitas por mês. Por isso, a menos que alguma criança esteja em estado mais grave e precise ficar mais tempo internada, dificilmente a veremos de novo pelo hospital. E sempre torcemos para que isso aconteça: que ela melhore rapidinho e volte para casa.

Hoje, porém, reencontramos a Ana, uma garotinha que, da última vez, nos deixou um tanto preocupados. Na última visita, Ana estava na UTI, não sorriu nem um momento, mas acompanhou cada movimento nosso com os olhinhos e, quando fomos embora, num esforço enorme, ela nos deu um tchauzinho. Hoje, ficamos felizes em vê-la de novo: estava melhor e em um quarto. Brincou e sorriu. Fizemos uma bagunça e ela participou.

É claro que seria melhor se ela não estivesse mais lá. Mas a alegria em vê-la melhor e fora da UTI foi tanta que posso dizer que essa palhaça aqui ficou feliz em reencontrar uma criança no hospital. E vai ficar mais feliz ainda quando, na próxima visita, souber que ela já voltou para casa.

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o nosso segredo



Todas as visitas são importantes. Mas existem aquelas em que a conexão com a criança é tão forte que até parece que são antigos conhecidos.

Na minha última visita senti uma ligação assim com uma garotinha e os seus 11 anos. Viramos confidentes nos minutos em que estive no quarto. Até agora me pego sorrindo ao lembrar daqueles olhinhos aflitos e a voz baixinha me contando, em segredo, várias coisas que eu, como sua mais-nova-melhor-amiga-de-infância, não vou me atrever a contar aqui! A sua mãe, ao lado, fingia não escutar a nossa conversa.

Depois a garotinha quis me arrumar um namorado: o irmão, que já ia chegar. Mas com a condição de que eu não o roubasse dela! E mais uma vez me confidenciou que o horário de visitas de todo mundo ali era menor que o dela porque ela não deixava o irmão ou quem a visitasse ir embora.

E quando chegou a hora de eu ir embora ela me chamou no cantinho e me deu uma bala de chocolate. "É a minha última mas fica pra você. E você pode dividir com ele, ó!", falou, apontando para o meu namorado - que eu já havia falado que se não desse casamento, iria procurar o irmão dela.

O que mais me comove nessa história foi a rapidez com que consegui ganhar a confiança daquela criança, em tão pouco tempo. Confiança, algo tão difícil de se conquistar nos dias de hoje. Essa conexão tão verdadeira é uma das possibilidades-presente que ser um palhaço de hospital nos proporciona. E conectar-se de forma tão profunda em apenas alguns minutos, principalmente hoje em dia, quando tudo é tão corrido e superficial é, para mim, uma dádiva. Benção.

Experiência mais enriquecedora essa de sentir o coração de uma criança com apenas um olhar.

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o canteiro e os três palhaços (ou os benefícios da música)



A visita deste sábado, dia 5 de junho, foi um tanto especial. Pelo fato de (infelizmente) o nosso trio não ter muitos recursos musicais a não ser alguns chocalhos e um radinho de pilha e por causa da nossa vontade de fazer algo diferente para os pacientes (principalmente os da hemodiálise), convidamos um músico profissional para nos acompanhar. E para a nossa alegria, ele aceitou a tarefa de muito bom grado.

O dito cujo eleito já conhecia muito bem o grupo, por ter mãe e namorada palhaças: já falei da minha sogra e agora falo do meu namorado. E por ele já ter esse conhecimento é que o chamamos, pois apesar de não ter tido nenhum treinamento, ele já sabia o básico de como agir dentro de um ambiente tão diferente daquele em que ele é acostumado a se apresentar.

O "canteiro" não teve seu nariz pintado de vermelho, mas o resto do rosto não escapou da nossa rotina: e nada de cara pelada, muito pelo contrário, cara pintada!

Para nossa alegria a experiência deu certo e trouxe resultados positivos. Sabemos que o tratamento de hemodiálise causa muito desconforto e por isso pensamos nestes pacientes com muito carinho. Percebemos que através da música conseguimos nos aproximar um pouco mais e aquecer o ambiente. Teve gente cantando, gente sorrindo, balançando o pé. Conseguimos levar um pouquinho de ânimo e disposição aos pacientes... e teve até mesmo quem pedisse que levássemos lá a Ivete Sangalo. Bem, essa fica pra próxima...

A música já tem os seus benefícios comprovados cientificamente. E embora ainda exista muito a ser estudado, é fato que melodias agradáveis induzem a liberação de substâncias que causam sensação de prazer e bem estar. E isso é tudo o que a gente quer levar aos nossos queridos pacientes.

Uma pesquisa feita em 2006 nos Estados Unidos pela instituição “Cleveland Clinic Foundation”, descobriu que pacientes tratados com melodias tiveram uma redução 21% maior nas suas dores que os que não ouviam música. (fonte: http://www.bancodesaude.com.br/materias/pesquisas-mostram-beneficios-musica-saude)

A revista Woman’s Day publicou a história verídica de um garoto de 3 anos que salvou sua irmã recém-nascida com um simples ato de amor. A garotinha internada na UTI neonatal , entre a vida e a morte, perdia a batalha pela vida, quando seu irmão começou a cantar para ela. Nesse momento, o bebê começou a reagir, a pulsação se estabilizou, a respiração difícil tornou-se suave. E em poucos dias ela se recuperou e foi para casa. (fonte: http://www.saudenainternet.com.br/portal_saude/o-bom-humor-e-o-processo-de-cura.php)


Muito obrigada, Pablo Ribeiro, por nos ajudar a colorir um pouquinho esse sábado cinzento e arrancar alguns sorrisos e olhares significativos de pessoas tão guerreiras.

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o que é ser palhaço

Um depoimento emocionante e verdadeiro. Encontrei no youtube e trouxe pra quem segue meu humilde diário.

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o pó branco

Texto fantástico do também fantástico Dr. Bula Chão.

Toda a transformação ocorrida em minha vida, após ter experimentado pela primeira vez o pó branco, iniciou-se há cinco anos. A minha vida, nesse período, resumia-se a incertezas, fracassos, desilusões afetivas e uma auto-cobrança muito intensa. Encontrava-me em pleno desarranjo emocional. A vida começava a perder o sentido. Vivia em plena amargura, era ríspido com as pessoas e isolei-me da sociedade. Não queria ver e falar com pessoas. Passava boa tarde das longas horas do dia em pleno pranto. Liberando lágrimas que vinham da alma e que como uma bela ópera, declamava o mais puro sofrimento pelo qual se resumia a minha pessoa.




Diante desse turbilhão emocional foi que conheci pela primeira vez o “pó branco”. Foi em uma quarta-feira, um dos piores dias da minha tão confusa vida, até então. Estava decidido não voltar para a casa. Confesso: queria que em um passe de mágica, desmaterializar-me e sem deixar nenhum rastro de meu possível paradeiro. Dessa forma, andando sem direção pelas ruas da cidade, encontrei uma conhecida, que pelo grau de afetividade ser muito limitado, não poderia a chamá-la de amiga e nos cumprimentamos porque à muito não nos víamos. Era perceptível de que ela encontrava muito mudada. Sem hesitação de minha parte, arriscaria que ela apresentava-se muito feliz. Desde já, gostaria de abrir um parágrafo sobre essa suposta colega.




Essa colega era muito instável emocionalmente. Já presenciei momentos de alegria, entretanto, outros de tristezas oriundos dela. E aleatoriamente, tomava conhecimento de sua alteração constante do seu estado por outros colegas.




Para minha surpresa, ao rele-la nesse marcante dia, eu percebi que ela estava muito diferente. Arriscaria-me em dizer que ela encontrava-se muito feliz. E para comprovar a minha teoria, a perguntei qual o motivo de tamanha aparente felicidade. Antes mesmo de finalizar a minha pergunta, ela me contrapôs com uma afirmação: você não está bem. E eu tenho uma solução para você.




Confesso que fiquei de certa forma alarmado, pois já estava transparecendo para os outros a minha amargura. Mesmo sem dizer uma palavra ou alguma confissão para outras pessoas.




Essa amiga se propôs a me mostrar aquilo pelo qual havia lhe tirado da sua inconstância emocional e que transformou definitivamente a sua vida. E então, ela me citou: o pó branco.




Confesso que fiquei alarmado, por nunca pensar que o pó branco seria o motivo de tanta felicidade e até mesmo, ser a solução para os problemas de alguma pessoa. A cada dia, presenciamos, ouvimos e assistimos nos noticiários da TV os efeitos avassaladores para os usuários, familiares e amigos para a vida dessas pessoas. Pensei bem antes de falar alguma palavra a essa colega. Entretanto, a vontade de mudar de vida, de sair dessa situação, de voltar à vida, de encontrar novamente o sentido para a minha vida, não hesitei em dizê-la: quero experimentar.




Acredito que essas duas palavras foram as mais ousadas pelo qual proferi em toda a minha vida. Para algumas pessoas, um grande ato de irresponsabilidade. Para mim, foi um ato de desespero.




Essa minha colega, percebeu isso. Certamente por também ter vivenciado essa situação. E a necessidade de mudança, me fez perguntar quando poderia experimentar o pó branco e se ele realmente resolveria os meus problemas. E surpreendentemente, me respondeu: agora!




Confesso que me veio um calafrio por todo o corpo com uma elevação dos meus batimentos cardíacos. Foi arrastado para uma praça que era bem vazia, sem muitas pessoas e carros transitando. Sentamos em um banco bem escondido. E antes de possivelmente experimentar pela primeira vez o pó branco, ela segurou as minhas mãos e disse que gostaria de me explicar alguns detalhes. Disse-me que com esse pó, eu poderia perder tudo, mais também poderia ganhar tudo. Me disse que a partir do momento que me tornasse um usuário, e utilizando-o da maneira correta, eu sentiria fantásticas sensações de euforia, sonhos, bem estar e alegria de viver. E era justamente o que havia perdido. Ela começou a me contar de algumas experiências de usuária do pó branco. Uma que me chamou a atenção foi quando ela estava utilizando o pó branco com mais uma amiga. Ela me relatou que quando você está sob o efeito do pó branco, ela possui licença para praticar certos atos, falar certas palavras, fazer certas brincadeiras que sem o pó branco, ela não poderia jamais falar e fazer que fosse muito mal interpretada pelas pessoas. E até mesmo, nos lugares pelo qual ela passou a freqüentar sob efeito do pó branco. Lugares ousados, que antes jamais se pensava em praticar certos tipos de atos. Esses conquistados somente com o pó branco. E também me alertou que a dependência era um dos fortes efeitos colaterais. Confesso que me assustei. Ela me disse que existem pessoas que com começam a utilizar o pó e por não se identificarem com a situação, com as mudanças ou por ser algo pesado demais para elas, elas deixam de utilizarem o pó branco. Entretanto, para aquelas pessoas que se identificam com a situação e percebem que você se torna um elemento de transformação na vida de outras pessoas e a sensação de bem estar causada pela utilização do pó branco, esses sim, nunca o largará. Será um eterno usuário.




Depois de muito treinamento, de conversas sobre como utilizar o pó branco e de como reagir diante alguns efeitos causados por esse pó, eu não me hesitei: experimentei.




A minha colega que agora se tornou definitivamente a minha amiga, escolheu um lugar que havia muitas pessoas aglomeradas. Dentre elas adultos, crianças e idosos. Até mesmo a presença da imprensa. Eu estava muito assustado, por tantas pessoas assim. Não saberia da minha reação ao utilizar pela primeira vez esse pó branco. Ainda mais com todas essas pessoas, ali me olhando. E a minha amiga, me alertou: a primeira vez é assim mesmo. Você irá se acostumar. E um detalhe que me deu um pouco mais de segurança era que nesse meu dia de estréia utilizando-se desse pó branco, era que não só eu, mais umas 20 pessoas estavam lá assim como eu, utilizando desse pó pela primeira vez. E assim aconteceu. Estávamos todos concentrados em uma salinha e fecharam a porta. E um a um, uns com habilidade e outros não começaram a utilizar o pó branco. E uma das primeiras reações daqueles que já tinham utilizado era o de profundas e sinceras gargalhadas dos agora: usuários do pó branco.




E assim, naquela salinha, chegou a minha vez. Estava nervoso e não mostrava nenhuma habilidade para utilizar o pó branco assim como a minha amiga possuía com o tempo de usuária. Eu sem nenhuma destreza, até mesmo cheguei a esparramar sobre a minha face o pó branco no local que não era para ser utilizado. E comecei a observar que ao me verem nessa situação, estava provocando muitas risadas dentro das pessoas naquela salinha. Incluindo a mim, quando me mostraram a minha imagem diante a um pequeno pedaço de espelho. Quando todos terminaram, abriram-se as portas daquele pequena salinha e a minha amiga em bom e alto tom, nos disse: vamos,vamos! E todos os companheiros daquela salinha, meio que desorganizados e amedrontados seguiram em frente e caímos em uma sala maior.




E para a surpresa de todos, todas aquelas inúmeras pessoas, estavam nos esperando. Eu fiquei muito assustado. E não tive muito tempo em pensar no meu estado de choque, pois assim que me senti anestesiado pelo choque, escutei: vai lá, agora é a sua vez.




Assim foi a minha primeira vez utilizando o pó branco. Fui uma sensação maravilhosa! Reafirmando os depoimentos de minha nova amiga. E felizmente, me tornei um usuário do pó branco. E sou do grupo daqueles que largaria mais. Passaram-se quase cinco anos e não consegui largar mais o pó branco. Tornei-me um usuário compulsivo e com crises de abstinências quanto fico sem utilizar o pó branco. E a quantidade de pó utilizado por vez também aumentou. Atualmente, utilizo uma quantidade de pó branco que recobre toda a minha face. E muita coisa mudou em minha vida. Eu realmente, ganhei tudo com isso. Ganhei amigos, o respeito, a vontade de viver, uma profissão pelo qual amo de paixão, ganhei o respeito das pessoas e principalmente das pessoas pequenas.




Esse pó branco, quando utilizado de forma correta, realmente é um elemento transformador. E o pó branco é uma engrenagem da nossa fábrica de sonhos. O pó, para aqueles que após meu depoimento sentem vontade de experimentar, pode ser encontrados em lojas de maquiagem ou casas especializadas. E também pode ser conhecido como PANCAKE.

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quebrando tabus



Todos nós, palhaços de hospital, trabalhamos geralmente em duplas ou trios fixos. E eles são definidos de acordo com a afinidade, afinal, precisamos ter uma ligação para saber como agir, entender o outro apenas pelo olhar e enfim 'fazer dar certo'. Desde que entrei para o grupo, tive alguns parceiros diferentes e sempre fomos muito afinados. A mudança se dava por causa de um emprego ou da mudança do palhaço do outro lado. Ultimamente as minhas visitas tem sido feitas em trio. Sempre senti maior afinidade com um dos parceiros, até mesmo porque já fazíamos as visitas juntos a mais tempo. Com o outro travo um pouco mais por uma questão muito simples: é a minha sogra.

No último sábado, dia 1° de maio, retornei às minhas visitas. Estava fora do cronograma a aproximadamente um mês e por isso a ansiedade tomou conta de mim nesta "volta". Ela aumentou ainda mais quando o meu parceiro me ligou um dia antes avisando que não poderia ir comigo, por problemas pessoais. Pronto: além de enferrujada, iria pela primeira vez sozinha com a minha sogra. E agora, José?

Cheguei ao hospital no sábado de manhã e como sempre fiquei sentada na porta, de cara limpa, sentindo o ambiente. Arrepios. Quando dei por mim, estava acompanhando uma oração que um grupo de pessoas repetia com fervor em um quarto próximo: Ave Maria. Aos poucos a ansiedade e o nervosismo foram embora. Os arrepios também. Calmaria. Senti que as coisas iriam fluir. E então a Doutora Cibalena chegou, à paisana, com um sorrisão. Fomos entrando.

Infelizmente a pediatria estava cheia: bom mesmo é quando não tem ninguém pra assistir as nossas palhaçadas. Mas dessa vez haviam muitos pequenos precisando de cuidados. A parte boa é que conseguimos arrancar muitos sorrisos. Conseguimos, inclusive, gargalhadas de perder o fôlego! E até mesmo quase arrancamos lágrimas: duas das crianças não queriam que fôssemos embora. Conseguimos ter uma resposta positiva até daquelas que pareciam não ter respostas. Foi uma visita abençoada. Mas afinal de contas, qual não é?

No fim de tudo, quebrei dois tabus neste último sábado e o saldo foi positivo: consegui desenferrujar assim que coloquei o nariz e chamei (com muito gosto) a minha sogra de palhaça. Várias vezes! E ela retribuiu.

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a publicitária e a palhaça - ou parênteses para desabafo pessoal




Muitos perguntam o que ganhamos ao colocar uma pelota vermelha no nariz e sair por aí saltitando. Qual é a graça em ser Palhaço?

"O vocábulo Graça provém do latim gratia, que deriva de gratus (grato, agradecido) e que em sua primeira acepção designa a qualidade ou conjunto de qualidades que fazem agradável a pessoa que as têm. No começo do século XX, costumava-se dizer: "qual é a sua graça?" para perguntar "como você se chama?". Este costume, que ainda hoje se mantem em alguns lugares, vinha da cerimônia de batismo dos católicos, na qual o indivíduo se torna cristão e, segundo a doutrina católica, recebe a graça de Deus e, junto com a graça, o nome. A palavra graça provém também de grátis, derivado do latim gratiis (pelas graças, gratuitamente) e gratificar, que desde o século XV equivalia a agradecer.
" (Wikipedia)

Apesar de todas as respostas que posso dar, consegui,pela primeira vez desde que conheço a minha Palhaça, dar uma resposta do fundo da alma a mim mesma: vivi na pele o verdadeiro sentido da "Graça" no "ser palhaço".

Três meses depois de entrar pelo hospital com o rosto limpo, a Publicitária foi desligada da instituição, sem explicações. De acordo com a Chefe, pela sua "qualidade de vida". Já estava sentindo fortes dores de cabeça há dois meses, o dia todo, todos os dias. E como um dia virou paciente não tiveram paciência com ela: a porta da rua foi a serventia.

Aí a Palhaça tomou as rédeas da situação. Aí a Palhaça mostrou ser mestre e - imagine só! - sábia.
Foi aí que a Palhaça mostrou para a Publicitária a sua verdadeira Graça.

"O palhaço deve ser generoso e bem disposto, aceitar as propostas que aparecem, entrar no jogo. O palhaço nunca diz que não diretamente e é sempre, SEMPRE, sempre sincero."


Filosofia de palhaço virou conselho poderoso. E a Publicitária aceitou a proposta porque viu que a Palhaça tinha razão. Não sabia que aprendera tanto com ela! E foi sincera. Aceitou de bom grado o novo jogo e jogando saiu de cena.

Quem volta para lá agora e todos os dias é a Palhaça. Sem beges nem meio termos. O uniforme? Colorido. E acima de tudo com uma felicidade explosiva e grata até o fim do dedão do pé por ter uma resposta verdadeira para quem pergunta:"
Qual é a graça em ser Palhaço?"



Anjo Caído
(Karla Mourão)

Do palhaço tentei roubar a alma.
Congelar o temerário gesto
que pede uma trégua
na tarefa de ser homem.

Do palhaço quis a inspiração
do riso mágico da imperfeição.

Deste ofício de homenagem ao ridículo,
de ensaio no erro,
exercício do tropeço,
quis conhecer a rotina.

Visitei palco e oficina
deste palhaço que insiste
na exaltação do feio,
na inquietação do débil,
sujo, sem futuro.

Do clown quis aprender a arte de aceitar a pior parte.

Negação de reis e rainhas,
ao bufão restam migalhas dos bolos,
das mulheres,
das medalhas.

Resta forca ou calabouço.
Crime lesa-sociedade: esta leviandade
de revelar a face dos cavaleiros,
honrados e esgotados
por uma moral patética.

Poética, a moral dos palhaços.
Sem princípios ou finalidades.

Cabeças sacrificadas em nome da cômica verdade:
Todos nós bufões enrustidos,
sufocados pelo desejode ser Deus.

Anjo caído,
o palhaço não aspira à imortalidade.

Vive na dualidade:
mais erros que acertos,
mais feios que bonitos,
mais a alegria do risco, que a tristeza da conquista.

Tentei aprender o chiste
que permite uma trégua na tarefa de ser forte.

Mil e duas noites,
andei a contar-me estórias
de anti-heróis.

Perdi oportunidades, mas ganhei a alforria das coisas em desuso.

Jogada no encanto das impossibilidades.
E ao sono pós-melodias
acrescentei novos terrores:
Medo de ser perfumada, bonitinha e ordinária.

O jeito e a prosa da corte
para ser aceita,direita...

Quiçá perfeita.

Para quem?
Pára-quedas.

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alguns momentos




Eu preciso de alegria

Chego no hospital e, ao lado de um palhaço mas ainda sem a minha maquiagem, encontro com uma senhora com olhos marejados que nos para. "Estou precisando de alegria hoje." Olho para a senhora e pergunto o que aconteceu. Sua mãe de 92 anos está na sala de cirurgia tratando de um mal que já lhe aflingia há 20 anos e ela escondia da família. Coração aperta. Digo que vai ficar tudo bem e que em breve teremos boas notícias. As pessoas têm carências e esses momentos não surgem só quando eu estou com a minha máscara. Entro para o vestiário.



Crianças...

Não acredito. Aquela criança que visitei há algum tempo está lá de novo. É um garoto gordinho e sorridente, de olhos verdes grandes e redondos, que da última vez tinha um braço enfaixado, olho roxo e alguns pontos. Hoje ele está com pontos na cabeça, o mesmo sorriso enorme e olhos brilhantes. Ele nos vê e vem na nossa direção. Vai querer brincar de esconde-esconde, corrida, pulos e mexer nos nossos bolsos. E apesar do cansaço que, por experiência nós sabemos que está por vir, sorrimos e encaramos. É difícil ver criança no hospital com tanta vida. É maravilhoso.



Mães e filhas

Estamos na sala de espera do pré-parto. Brincamos com alguns pais marinheiros de primeira viagem. O clima é de tensão. Esperar é tenso. Uma porta se abre e dela saem duas enfermeiras empurrando uma maca onde uma mulher está deitada. Da sala de espera se levanta uma senhora aflita que corre até a maca, toca o rosto da mulher e com a voz embolada não consegue falar muito: "Minha filha!".



Esperando

Ainda na sala de espera uma senhora me olha e fala em tom de cumplicidade: "A cirurgia acabou. Ela está bem e daqui a pouco vai para o quarto. Deu certo!" Alívio. Aquela que desabafou quando cheguei me reconhece por causa do meu amigo palhaço e me dá a boa notícia que garanti que teríamos. Sinto que cumpri o meu dever. E que Deus esteve ao nosso lado em mais uma jornada.

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fui contaminado por um sorriso.


(lindo texto do Sidnei Oliveira, retirado daqui)



Tentei manter minha atitude séria e controlada, mas foi impossível. Quando me dei conta, estava sorrindo e fazendo caretas.

O olhar direto e exclusivo, me mantinha de cabeça abaixada, completamente absorvido pelo sorriso daquela criança.

Honestamente era impossível não retribuir, aliás, parecia que o êxtase era recíproco, pois a cada sorriso que eu esboçava em meu rosto, outro mais intenso recebia de volta.

Depois que me afastei daquele contagiante sorriso, uma sensação de leveza tomou conta de mim. Sentia-me mais descansado, mais motivado., mais criativo. Queria receber mais daqueles momentos.

Ainda tinha um sorriso nos lábios quando encontrei um novo olhar. Desta vez não precisava abaixar a cabeça, pois os olhares estavam mais próximos.

Entreguei o meu melhor sorriso, mas não recebi nada além do que um discreto “sorriso forçado”, como que apenas, agradecendo a indesejada atenção dispensada.

Felizmente o elevador chegou ao meu andar e pude sair do incômodo silêncio retribuindo com um distante e formal “até logo”.

Onde foi que perdemos o caminho da alegria? Como conseguimos esquecer a energia que um sorriso pode transmitir?

É evidente que nem tudo é motivo de alegria, principalmente com esta crise, que insiste em levar pessoas e seus olhares, apenas para os momentos amargos.

Quanto mais insistimos neste caminho, menos sorrisos encontramos, menos criativos e motivados nos sentimos. O cansaço nos domina.

Sempre ouvi dizer que o sorriso “abre portas”. Concordo totalmente!

Será que, no atual momento, não seria uma excelente estratégia, abrir a maior quantidade de portas possíveis?

Talvez tenha surgido um “sorriso forçado”, neste exato momento em seu rosto, fruto de uma pergunta: “Será que é assim tão simples?

Experimente encontrar um olhar e sorrir de verdade.

Se tiver dificuldades em encontrar uma criança sorridente por perto, para que comece a se contaminar, vá ao jardim mais próximo, pegue a flor mais linda e entregue ao primeiro olhar feminino que encontrar.

Acredite! Você encontrará um sorriso contagioso e poderoso.

Espero que você seja contaminado também!

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o motivo




Hoje foi a minha primeira visita do ano, acompanhada de mais 3 palhaços. A minha última visita aconteceu no dia 21 de novembro (devido a problemas pessoais eu não pude fazê-la em dezembro), o que significa que desde que comecei a trabalhar no Hospital ainda não havia entrado lá sem bater ponto e de nariz vermelho.

Esta primeira visita foi interessante porque pouca gente me reconheceu. E a primeira pessoa pareceu surpresa - talvez até assustada - e me perguntou o porque de eu participar "disso". "É muito bonito, mas deve ser muito sofrido. Não entendo o motivo de você procurar o sofrimento".

Eu poderia dar várias respostas, mas na hora só sorri. Agora, longe da euforia do momento, penso nos motivos que me levaram a querer ser uma Palhaça de Hospital. Faço parte deste grupo há mais de 2 anos e sinto que talvez os motivos disso sejam totalmente egoístas: antes me faltava algo.

Sempre procurei me encontrar em alguma filosofia de vida, em alguma religião, ter fé, crer em algo. Mas minhas conversas com Ele só aconteciam à noite, quando colocava a cabeça no travesseiro. Eu queria desenvolver mais a minha espiritualidade, mas não acertava o templo. "Ele está em todo lugar", dizem. E eu creio. Mas como humana e errada que sou, sentia que faltava algo. Uma conexão maior, talvez.

Quando soube da existência deste grupo e da possibilidade de me tornar membro, fui por ser algo novo. Queria experimentar. Além disso, queria poder fazer algo de útil para os outros, fazer o bem. Não sabia que ia encontrar a peça que eu sentia tanta falta.

Em minha primeira visita encontrei um garotinho com vários problemas. Além de ter tido um problema cerebral, que limitava os movimentos e desenvolvimento, ele estava com pneumonia e respirava por aparelhos. Porém, quando me viu, esforçou-se para virar em minha direção. Os olhinhos brilharam. Eu fiquei assustada e tive medo de fazer alguma coisa errada: era a hora do "vamos ver". Comecei a fazer a única coisa que me veio à cabeça: bolinhas de sabão. E acertei. O garotinho sorria, tentava se mover - e movia. Pedia mais. Arrepiei e senti a conexão. Naquele momento eu percebi que poderia me sentir mais completa de uma forma que eu nunca imaginei antes: sendo uma palhaça.

Nem sempre eu consigo arrancar um sorriso: às vezes a dor é maior. Nem sempre as bolinhas de sabão dão certo: às vezes elas estouram, às vezes ouço um choro. Mas a conexão não se perde. Quando estou com meu nariz me sinto mais humana. Ao mesmo tempo, mais perto de algo próximo do divino.

Mas eu acho que explicar tudo isso no momento em que o meu colega perguntou os meus motivos não viria ao caso. Até porque ele não entenderia que sou palhaça por ser egoísta. É por isso que preferi sorrir. E assim vai ser sempre, até eu encontrar uma resposta melhor do que "é bom fazer o bem".

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