o nosso segredo



Todas as visitas são importantes. Mas existem aquelas em que a conexão com a criança é tão forte que até parece que são antigos conhecidos.

Na minha última visita senti uma ligação assim com uma garotinha e os seus 11 anos. Viramos confidentes nos minutos em que estive no quarto. Até agora me pego sorrindo ao lembrar daqueles olhinhos aflitos e a voz baixinha me contando, em segredo, várias coisas que eu, como sua mais-nova-melhor-amiga-de-infância, não vou me atrever a contar aqui! A sua mãe, ao lado, fingia não escutar a nossa conversa.

Depois a garotinha quis me arrumar um namorado: o irmão, que já ia chegar. Mas com a condição de que eu não o roubasse dela! E mais uma vez me confidenciou que o horário de visitas de todo mundo ali era menor que o dela porque ela não deixava o irmão ou quem a visitasse ir embora.

E quando chegou a hora de eu ir embora ela me chamou no cantinho e me deu uma bala de chocolate. "É a minha última mas fica pra você. E você pode dividir com ele, ó!", falou, apontando para o meu namorado - que eu já havia falado que se não desse casamento, iria procurar o irmão dela.

O que mais me comove nessa história foi a rapidez com que consegui ganhar a confiança daquela criança, em tão pouco tempo. Confiança, algo tão difícil de se conquistar nos dias de hoje. Essa conexão tão verdadeira é uma das possibilidades-presente que ser um palhaço de hospital nos proporciona. E conectar-se de forma tão profunda em apenas alguns minutos, principalmente hoje em dia, quando tudo é tão corrido e superficial é, para mim, uma dádiva. Benção.

Experiência mais enriquecedora essa de sentir o coração de uma criança com apenas um olhar.

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o canteiro e os três palhaços (ou os benefícios da música)



A visita deste sábado, dia 5 de junho, foi um tanto especial. Pelo fato de (infelizmente) o nosso trio não ter muitos recursos musicais a não ser alguns chocalhos e um radinho de pilha e por causa da nossa vontade de fazer algo diferente para os pacientes (principalmente os da hemodiálise), convidamos um músico profissional para nos acompanhar. E para a nossa alegria, ele aceitou a tarefa de muito bom grado.

O dito cujo eleito já conhecia muito bem o grupo, por ter mãe e namorada palhaças: já falei da minha sogra e agora falo do meu namorado. E por ele já ter esse conhecimento é que o chamamos, pois apesar de não ter tido nenhum treinamento, ele já sabia o básico de como agir dentro de um ambiente tão diferente daquele em que ele é acostumado a se apresentar.

O "canteiro" não teve seu nariz pintado de vermelho, mas o resto do rosto não escapou da nossa rotina: e nada de cara pelada, muito pelo contrário, cara pintada!

Para nossa alegria a experiência deu certo e trouxe resultados positivos. Sabemos que o tratamento de hemodiálise causa muito desconforto e por isso pensamos nestes pacientes com muito carinho. Percebemos que através da música conseguimos nos aproximar um pouco mais e aquecer o ambiente. Teve gente cantando, gente sorrindo, balançando o pé. Conseguimos levar um pouquinho de ânimo e disposição aos pacientes... e teve até mesmo quem pedisse que levássemos lá a Ivete Sangalo. Bem, essa fica pra próxima...

A música já tem os seus benefícios comprovados cientificamente. E embora ainda exista muito a ser estudado, é fato que melodias agradáveis induzem a liberação de substâncias que causam sensação de prazer e bem estar. E isso é tudo o que a gente quer levar aos nossos queridos pacientes.

Uma pesquisa feita em 2006 nos Estados Unidos pela instituição “Cleveland Clinic Foundation”, descobriu que pacientes tratados com melodias tiveram uma redução 21% maior nas suas dores que os que não ouviam música. (fonte: http://www.bancodesaude.com.br/materias/pesquisas-mostram-beneficios-musica-saude)

A revista Woman’s Day publicou a história verídica de um garoto de 3 anos que salvou sua irmã recém-nascida com um simples ato de amor. A garotinha internada na UTI neonatal , entre a vida e a morte, perdia a batalha pela vida, quando seu irmão começou a cantar para ela. Nesse momento, o bebê começou a reagir, a pulsação se estabilizou, a respiração difícil tornou-se suave. E em poucos dias ela se recuperou e foi para casa. (fonte: http://www.saudenainternet.com.br/portal_saude/o-bom-humor-e-o-processo-de-cura.php)


Muito obrigada, Pablo Ribeiro, por nos ajudar a colorir um pouquinho esse sábado cinzento e arrancar alguns sorrisos e olhares significativos de pessoas tão guerreiras.

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