ser palhaça




Por muito tempo eu tive medo de parecer boba por falar algo errado, de não saber como agir e acabar pagando mico. Medo de levar tombo, de rasgar a calça, de escorregar, do salto quebrar, do que poderiam pensar. Pior ainda: medo de fazer papel de palhaça. Bom, isso até experimentar o quanto é libertador assumir que não somos perfeitos.

Vivemos em um mundo onde somos sempre influenciados a chegar em 1° lugar, ser o melhor, "exercitar a excelência". Devemos tirar as melhores notas, ter as respostas certas, agir da forma mais adequada e ser politicamente corretos. Ah, e tudo isso vestindo a roupa da moda, com o cabelo sempre arrumado e sorriso colgate 100% branco.

Aprendemos na teoria que fazer papel de palhaço é ser perdedor. Ser alvo de piadas é ser ridículo. E mostrar o seu ridículo é imperdoável. Aceitar o papel de palhaço é ser o anti-herói.

Mas ainda bem que (quase) tudo que se aprende pode ser desaprendido. E aprendido novamente. Pois a verdade é que errar pode ser até mesmo divertido e fazer um bem danado. Aceitar os seus defeitos pode ser relaxante. Rir de si mesmo igualmente. Isso é filosofia de palhaço aplicada. Do nariz vermelho para a vida.

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amor + doação = milagre


Imagem: banco de imagens



Muito tempo sem escrever, apesar de tantas outras visitas feitas desde a última postagem neste blog. É,a correria, a falta de tempo... que vai em direção contrária ao que vou falar agora. É algo que sempre está presente em todas as visitas que faço, em todos os dias, e que foi extremamente marcante na última vez em que estive no hospital: a força do amor e a importância em se doar.

Em minha penúltima visita, conheci este bebê. O menininho estava com inúmeros problemas e dificilmente sobreviveria. Sua mãe tentou abortá-lo aos 5 meses de gravidez e por isso ele nasceu com uma série de dificuldades. A mãe continuou maltratando a criança que, com 5 meses e pesando pouco mais de dois kilos, deu entrada no hospital em estado gravíssimo. Ela foi proibida de visitá-lo e mesmo assim ele não estava sozinho nem um dia. A senhora que estava em seu quarto era uma vizinha e me falou que toda a vizinhança estava se revezando para fazer companhia ao pequeno.

Saí do quarto com o coração apertado. Como uma mãe pode ser responsável por uma crueldade tão grande? "Mãe". Mas o que a vizinha me falou, sobre todos estarem revezando pela criança, me acalmou um pouquinho e afastou um pouquinho a tristeza.

Quando voltei ao hospital na semana seguinte, procurei pelo bebê. Quando entrei no quarto, uma outra vizinha estava lá. Ela me contou a mesma história que a primeira. Dessa vez, ele já havia tido uma melhora e não estava mais usando nenhuma máquina para auxiliar em nada. Na verdade, ele teve uma melhora surpreendente e não corria mais risco. Os vizinhos? Continuavam se revezando para não deixar o pequeno só. Se mantinham ao lado da cama, velando, orando. Lendo uma revista, vendo tv. Mas nunca abandonaram o pequenino que esteve à beira da morte.

Dessa vez eu saí do quarto com o coração leve. Doação, minha gente! Doação e amor. Essa dupla salvou aquele bebê e me atrevo a dizer que a mãe não fez falta durante esta recuperação. Naquele quartinho de hospital, o que eu senti foi que milagres podem acontecer sim, desde que amor, atenção e energia conspirem para isso.

Não voltei ainda no hospital mas espero que ao voltar aquele quarto já esteja vazio. Que Deus continue abençoando cada uma daquelas pessoas que estiverão ao lado daquela cama. E que o bebê cresça feliz em meio a todos esses pais e mães que assumiram estes postos porque quiseram e já provaram o tanto que o amam.

Ah, e claro! Como disse a vizinha... Que o pequeno fique bastante esperto mas não quebre a janela do vizinho, afinal, estaria quebrando a janela da própria casa e teria muitas outras para se esconder na hora da bronca!

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