a publicitária e a palhaça - ou parênteses para desabafo pessoal




Muitos perguntam o que ganhamos ao colocar uma pelota vermelha no nariz e sair por aí saltitando. Qual é a graça em ser Palhaço?

"O vocábulo Graça provém do latim gratia, que deriva de gratus (grato, agradecido) e que em sua primeira acepção designa a qualidade ou conjunto de qualidades que fazem agradável a pessoa que as têm. No começo do século XX, costumava-se dizer: "qual é a sua graça?" para perguntar "como você se chama?". Este costume, que ainda hoje se mantem em alguns lugares, vinha da cerimônia de batismo dos católicos, na qual o indivíduo se torna cristão e, segundo a doutrina católica, recebe a graça de Deus e, junto com a graça, o nome. A palavra graça provém também de grátis, derivado do latim gratiis (pelas graças, gratuitamente) e gratificar, que desde o século XV equivalia a agradecer.
" (Wikipedia)

Apesar de todas as respostas que posso dar, consegui,pela primeira vez desde que conheço a minha Palhaça, dar uma resposta do fundo da alma a mim mesma: vivi na pele o verdadeiro sentido da "Graça" no "ser palhaço".

Três meses depois de entrar pelo hospital com o rosto limpo, a Publicitária foi desligada da instituição, sem explicações. De acordo com a Chefe, pela sua "qualidade de vida". Já estava sentindo fortes dores de cabeça há dois meses, o dia todo, todos os dias. E como um dia virou paciente não tiveram paciência com ela: a porta da rua foi a serventia.

Aí a Palhaça tomou as rédeas da situação. Aí a Palhaça mostrou ser mestre e - imagine só! - sábia.
Foi aí que a Palhaça mostrou para a Publicitária a sua verdadeira Graça.

"O palhaço deve ser generoso e bem disposto, aceitar as propostas que aparecem, entrar no jogo. O palhaço nunca diz que não diretamente e é sempre, SEMPRE, sempre sincero."


Filosofia de palhaço virou conselho poderoso. E a Publicitária aceitou a proposta porque viu que a Palhaça tinha razão. Não sabia que aprendera tanto com ela! E foi sincera. Aceitou de bom grado o novo jogo e jogando saiu de cena.

Quem volta para lá agora e todos os dias é a Palhaça. Sem beges nem meio termos. O uniforme? Colorido. E acima de tudo com uma felicidade explosiva e grata até o fim do dedão do pé por ter uma resposta verdadeira para quem pergunta:"
Qual é a graça em ser Palhaço?"



Anjo Caído
(Karla Mourão)

Do palhaço tentei roubar a alma.
Congelar o temerário gesto
que pede uma trégua
na tarefa de ser homem.

Do palhaço quis a inspiração
do riso mágico da imperfeição.

Deste ofício de homenagem ao ridículo,
de ensaio no erro,
exercício do tropeço,
quis conhecer a rotina.

Visitei palco e oficina
deste palhaço que insiste
na exaltação do feio,
na inquietação do débil,
sujo, sem futuro.

Do clown quis aprender a arte de aceitar a pior parte.

Negação de reis e rainhas,
ao bufão restam migalhas dos bolos,
das mulheres,
das medalhas.

Resta forca ou calabouço.
Crime lesa-sociedade: esta leviandade
de revelar a face dos cavaleiros,
honrados e esgotados
por uma moral patética.

Poética, a moral dos palhaços.
Sem princípios ou finalidades.

Cabeças sacrificadas em nome da cômica verdade:
Todos nós bufões enrustidos,
sufocados pelo desejode ser Deus.

Anjo caído,
o palhaço não aspira à imortalidade.

Vive na dualidade:
mais erros que acertos,
mais feios que bonitos,
mais a alegria do risco, que a tristeza da conquista.

Tentei aprender o chiste
que permite uma trégua na tarefa de ser forte.

Mil e duas noites,
andei a contar-me estórias
de anti-heróis.

Perdi oportunidades, mas ganhei a alforria das coisas em desuso.

Jogada no encanto das impossibilidades.
E ao sono pós-melodias
acrescentei novos terrores:
Medo de ser perfumada, bonitinha e ordinária.

O jeito e a prosa da corte
para ser aceita,direita...

Quiçá perfeita.

Para quem?
Pára-quedas.

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