a vida no hospital

Eu trabalho a menos de um mês no mesmo hospital onde comecei a fazer minhas tímidas visitas, em 2007. E confesso que nas primeiras semanas foi quase impossível me segurar cada vez que eu entrava por aquela porta: sem minha máscara de borracha ou minhas bolinhas de sabão, só posso olhar para as pessoas e ser simpática com um bom dia ou boa tarde. Nada de cantar, arreganhar um sorriso ou sentar do lado como velha conhecida. Isso ficou restrito aos dias de visita, claro, mas durante a semana é a publicitária que está lá.
Logo na primeira semana, tive um treinamento sobre o funcionamento do hospital e durante uma das palestras ouvi uma frase que mexeu comigo. Ela foi dita a uma das novas enfermeiras da UTI Neo, mas foi como uma luva para mim - não a publicitária, a palhaça. "Temos que ir embora do hospital e deixar as criancinhas aqui, por mais difícil que seja." E eu fiquei me perguntando se faço isso. Não faço. Para falar a verdade, tenho uma creche inteira correndo no meu terreiro. É complicado. Mas algumas histórias eu carrego comigo... e é difícil me desprender. Sei que isso não é bom, mas ainda não aprendi a não me envolver em alguns casos. Acho que é normal. E sei que preciso dar um jeito de tornar tudo isso mais leve: assim, apesar de ainda carregar algumas criancinhas, talvez não seja mais tão pesado.
O trabalho no hospital é maravilhoso, e poder conhecer um pouco mais do seu dia-a-dia, além do meu jaleco enfeitado, é uma experiência incrível. Mas confesso que nessas primeiras semanas de trabalho muitas vezes eu saio do hospital, mas ele não sai de mim.
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