dois meninos na faixa dos 10




Primeiro post. Deveria ser mais alegre, afinal, hoje minhas visitas foram mais tranquilas. Poucas crianças e as que estavam lá brincaram e pareceram se divertir - o que fizemos deu certo, e confesso que é muito frustrante quando não dá. Mas duas histórias me marcaram muito. Uma delas já faz parte de mim há alguns meses e a outra quebrou hoje um grande tabu. Elas são a cara de uma realidade infeliz em que muitos vivem. E apesar de ser "palhaça", tem horas em que eu preciso (e muito!) falar sério. Nessas horas eu tiro o nariz, pego minha xícara de café e deixo o coração tomar conta. Então... "senta que lá vem a história".


Menino 1

Vinda do sertão nordestino há 18 anos, dona Maria do Socorro pede ajuda até no nome - talvez seus pais tenham pressentido que passaria por poucas e boas. Dez dias antes de seu único filho se internar por uma doença desconhecida, perdeu a mãe. Mãe sozinha que é, usa como muleta um olhar triste e um quase sorriso apagado, tímido, humilde. Seu filho se internou em julho deste ano, e desde então, dona Maria do Socorro anda pelo hospital. "Ele vai ficar bem, não vai, menina? Deus tem que me ajudar." Foi o que ela falou pra mim quando nos encontramos pela primeira vez na salinha de espera da UTI. Seu menino, de 11 anos, havia entrado para a cirurgia. Hoje, depois de muitos encontros, foi a primeira vez em que falei da pessoa por trás da máscara - muito pouco, mas o suficiente pra dona Maria do Socorro falar dela também. Seu filho, apesar de ter várias escoriações por todo o corpo e ainda não se apoiar em pé, estava mais animado e interessadíssimo no seu celular novo. A sua doença continua desconhecida. O garoto quer passar uma música para o meu celular via Bluetooth. E eu não consigo entender como é que uma solitária mãe que nasceu, cresceu e envelheceu no sertão do nordeste, além de viver de forma tão sofrida, não tem o direito nem mesmo de saber o que é que faz tanto mal ao seu filho. Dona Maria continua pedindo socorro.


Menino 2

Os olhos brilham e ele sorri como quem quer sair correndo por aí para brincar. Ele tem 11 anos, olhar esperto e sorriso sincero. Um mini-game do lado. Mas apesar do sorriso, não vai realizar a vontade de correr por aí: levou um tiro. Tem uma costura que vai do umbigo até o meio do peito. Está em uma cadeira de rodas e não vai voltar a andar, mas ainda não sabe. Enquanto isso, sua mãe ajeita a almofada da sua cadeira e ele se envolve com um funk que sai do celular. Aliás, ele sabe cantar a música toda, sem errar uma palavra só. Sua realidade é marcada pela violência. Traficante e homicida, sua fama nas ruas é de cruel. Mas naquela cadeira de rodas, o que vi foi uma criança soltando gargalhadas e me pedindo um adesivo para enfeitar o mini-game. A comunidade está um pouco mais aliviada. É mais fácil confiar na falsa segurança de um destino trágico a dar assistência às crianças que vivem na marginalidade.

Tenho que confessar que antes de saber que o garoto estava internado, eu já conhecia a sua fama e muitas vezes tive receio. Mas a verdade é que é muito triste ver uma infância corrompida, e mais triste ainda quando se sabe que se existissem mais projetos voltados para crianças como ele, essa história poderia ser diferente, assim como muitas outras. Um projeto social não muda o mundo e nem tem o poder de colocar ponto final na criminalidade (
até porque o buraco é bem mais embaixo e a história é muito mais complicada), mas acredito que uma oportunidade pode mudar a vida de muita gente.

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